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13 novembro, 2009

O drama do blogueiro é o mesmo da imprensa

Sinto não estar conseguindo manter a regularidade na postagem, mas ficou impossível continuar dedicando ao blogue tanto tempo como fiz nos seus primeiros quatro anos.

Sem isso, não há como fazer qualquer coisa que mereça ser publicada, com o devido cuidado e profundidade, seja a partir de uma pesquisa original, seja a contextualização de matérias publicadas pela imprensa.

Na verdade, é o mesmo drama da imprensa em geral e em especial, da regional: produzir informação de qualidade custa muito caro. Quem paga?

Tiago Dória escreveu a respeito recentemente, com foco nos projetos corporativos, a propósito do encerramento de mais um saite de "jornalismo cidadão":


Do ponto de vista de negócios, é bem complicado o chamado “jornalismo cidadão” ter renda direta capaz de sustentar uma produção mais consistente, até por que acredito que seja algo ligado bem mais a uma economia não-monetária, em que as moedas são reputação e atenção.


Lúcio Flávio Pinto, que começou a produzir o Jornal Pessoal antes da internet (link à direita da página, em Fora do Eixo), abordou o assunto na perspectiva de quem trabalha sozinho, exemplificando com a logística envolvida numa reportagem que fez para o Estadão, na década de 70:

Memória

Leitores deste jornal manifestaram, através de debate travado no blog Quinta Emenda, que eu substituísse o site do Jornal Pessoal por um blog. Disse que gostaria realmente de ter um veículo diário de informação, necessário e até vital diante da abulia e dos compromissos da grande imprensa, mas o projeto é inviável. O site, que criei no ano passado, serve de abrigo para as matérias do JP, permitindo que elas sejam lidas por um público imensamente maior (ao menos em potencial) do que o alcançado pela versão impressa em papel, circunscrita a Belém e arredores.

Já o blog teria que apresentar matérias novas, do dia, se possível, exclusivas; se não, pelo menos, atualizadas e completas. Isto requer dedicação integral. Para fazer um blog assim, profissional, eu viveria de quê? Do blog? Mas com que roupa? Com muitos anúncios baratos ou poucos anúncios caros. De onde eles viriam? Admitindo-se que eles existam (no que descreio), significaria renunciar a uma opção editorial de 22 anos, da qual não pretendo mais me afastar, já entrado nos 60 anos de idade, mais de 43 de profissão. Sem falar que um blog, como o que os leitores querem e do qual realmente precisam, significaria o fim do Jornal Pessoal impresso. Tal blog representa investimento razoável.

Na justificada reação à grande imprensa, por seus erros do passado, renovados no presente, os leitores que circulam pela internet subestimam um aspecto importante da razão de ser dos grandes jornais: produzir informações custa caro, cada vez mais caro - e com dificuldades crescentes. Não press-releases ou comentários vagos e abstratos, mas aquelas informações que registram a dinâmica do cotidiano.

Dou só um exemplozinho pessoal: para fazer uma reportagem sobre a enchente de 1976, a segunda maior do século passado na Amazônia, fui de avião de Belém a Altamira, segui de carro para o porto de Vitória, onde fretei um barco, que me permitiu descer o Xingu e atravessar o Amazonas para a margem esquerda, parando em Almeirim, Prainha, Monte Alegre e Santarém. Fui de avião para Manaus e de lá peregrinei de barco por Manacapuru, Parintins e arredores da capital amazonense. Voltei de avião para Belém, depois de duas semanas de trabalho, com tudo (incluindo hotéis, hospedagem e outras despesas) pago por O Estado de S. Paulo. O resultado desse investimento (bem acima de 10 mil reais de hoje) foi uma grande (ao menos no tamanho) reportagem sobre a cheia de 1976, com informações de cada um dos locais importantes para a avaliação do tamanho da cheia, dos seus efeitos e desdobramentos. Qual blog pode assumir esse investimento?

Por tudo isso, espero que meus leitores aceitem a situação atual, sem nunca deixar de apontar-lhe as falhas e cobrar mais.

LFP @ outubro 1, 2009

Leia também:

Só mais três dias - Solidariedade a Lúcio Flávio Pinto

No Pará é assim... 2

2 comentários:

  1. Marcus, sobre esse drama, veja comentário bem humorado do Richard (http://cafedorichard.wordpress.com): "no ritmo que anda este blog, vai acabar virando menstruação (só de mês em mês)".
    Mesmo que seja assim, é sempre certa a qualidade dos seus textos no blog. Por isto, sempre aparecemos por aqui.
    abraço do Haroldo

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  2. Obrigado pelo estímulo, Haroldo. Parece que estamos vivendo a ressaca dos blogs, quando chega ao limite a possibilidade de deixar outras coisas por eles. Outro caso sintomático é o do Idelber Avelar, que parou em agosto, quanto estava quase completando cinco anos no ar - e o dele não tinha alguns milhares de acesso: passava do milhão. Vale a pena ler a despedida:http://www.idelberavelar.com/archives/2009/08/este_blog_esta_em_hibernacao_por_tempo_indeterminado.php
    Abraço,
    Marcus

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