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05 outubro, 2007

Centro Cultural Oscar Niemeyer - As Curvas no Caminho

Por que Fechou?

O não funcionamento do Centro Cultural Oscar Niemeyer tem sido objeto de várias matérias na imprensa. O interesse é proporcional à dimensão da obra e da campanha publicitária que marcou sua inauguração, em março de 2006 - a ilustração da maquete era onipresente em outdoors e jornais.


Coube ao repórter Rogério Borges, do Caderno Magazine, de O Popular, a solução do mistério: o Niemeyer está fechado porque falta terminar de pagar a construtora, para que esta acabe e entregue a obra (leia aqui). Com isso, na melhor das hipóteses, o espaço deverá estar funcionando só dois anos após sua inauguração, em março de 2008. Seriam R$ 7,8 milhões atrasados, mais R$ 1,8 milhão por serviços adicionais a serem executados, somando 9,6 milhões e um custo total de R$ 62 milhões.

Os números divergem um pouco dos que me foram fornecidos pelo departamento financeiro da Agepel, no início do ano: o custo total seria de R$ 65 milhões, dos quais já haviam sido pagos R$ 58 milhões, restando pagar R$ 7 milhões.

A grande questão

Seja qual for o valor exato a grande questão é saber como o custo de uma obra pôde aumentar tanto? O preço final é quase o dobro do contratado em 2005 ( R$ 37,4 milhões), e mais de 5 vezes o preço divulgado em 2001 (R$ 12 milhões).


Justificativa da Agepel

Pedi à Agepel que explicasse o que ocorreu (leia abaixo). Segundo o arquiteto Marcílio Lemos, Gerente Executivo dos Centros Culturais e responsável pela obra na agência, é simples: os R$ 12 milhões originais foram uma estimativa para a contratação de Niemeyer - considerou-se 12 mil m2 de construção a R$ 1 mil o m2; um segundo orçamento, ainda sem o local definido e nem o projeto concluído, foi estimado para divulgação à imprensa - R$ 25,5 milhões; com a definição do local, a área construída aumentou para cerca de 18.000 m2 e nova estimativa foi feita - R$ 38 milhões; finalmente, acréscimos de serviços não contemplados no projeto arquitetônico levaram o valor total aos R$ 65 milhões.

Surpreende na resposta, primeiro, como diferenças da ordem de dezenas de milhões de reais são tratadas como se fossem milhares. Segundo, a divergência das informações prestadas com o divulgado pela imprensa. No site do governo estadual, o Goiás Agora, o valor de R$ 25 milhões apareceu no lançamento da pedra fundamental da obra, em outubro de 2003, no local definitivo. À época da licitação, em janeiro de 2005, o valor era de R$ 29 milhões. Na contratação, em março, chegara aos R$ 37 milhões, que passaram a R$ 41 milhões outubro e, finalmente, a R$ 60 milhões na inauguração, em março de 2006. Já no Diário Oficial, o valor começa em 22 milhões, em dezembro de 2004, sobe para 44 milhões em junho de 2005 e chega aos 65 milhões em agosto de 2006 (figura 1).



figura 1


clique sobre a imagem para ver os extratos publicados no Diário Oficial


C. C. Oscar Niemeyer - Diário Oficial


Qual é a área?

A área construída também varia de acordo com a fonte. Na resposta da Agepel, passa de 12 mil m2 para 18mil m2. Segundo o Popular, em matérias ilustradas com as plantas da obra, a área final era de 21,5 mil m2. O Goiás Agora, curiosamente, registrou 21mil m2 no início da obra e depois passou a marcar 17,9 mil m2. Mesmo considerando os números de O Popular, mais generosos, o aumento no custo da obra em relação ao aumento da área é impressionante (figura 2).





figura 3


clique sobre a imagem para ler a resposta da Agepel

Centro Cultural Oscar Niemeyer


Em busca de recursos

Sobre o custo, é importante lembrar que entre o convite a Niemeyer, em 1999, e o início da obra, em janeiro de 2005, passaram-se 5 anos em que era evidente a falta de recursos para construí-la, ao ponto de, em meados de 2003, já definido o local para a construção, anunciar-se que estaria em andamento um acordo com o Grupo Flamboyant, em que este a bancaria, abrindo mão de ação judicial em que pleiteava a anulação da doação da área ao estado, feita para a construção do Centro de Convenções (sic).

Em busca de um projeto

Quanto ao planejamento, primeiro anunciou-se que os projetos complementares estavam sendo concluídos em outubro de 2003. A seguir, em dezembro de 2004, para finalmente serem entregues em janeiro de 2005. Lembro que Agepel e Agetop fizeram a obra sem licença ambiental ( leia Crime Ambiental - Agepel e Agetop evitam processo por construção do Centro Cultural Oscar Niemeyer).

Encurtamento do prazo, alargamento do custo


Talvez uma pista para o aumento no custo esteja na redução do prazo previsto para a duração da obra. Em outubro de 2003, era estimado em dois anos. Em 20 de dezembro de 2004, o Goiás Agora mantinha a mesma previsão. Só no dia 8 de março de 2005 , no ínicio da execução, o prazo foi reduzido para um ano.

Enquanto a construção caminhava, o número de trabalhadores e seu horário de trabalho foram incrementados paulatinamente para cumprir esse prazo: em junho, 200 operários trabalhavam na obra; em outubro, 300 pessoas, trabalhando de segunda a sábado até as 22 horas e meio período aos domingos; em novembro, 400 homens, trabalhando 7 dias por semana até as 22horas; em janeiro de 2006 eram 450 homens, trabalhando 7 dias por semana, até as 21 horas.

Controle de qualidade

A pressa cobrou seu preço também na estética. Matéria da revista Projeto Design, ilustrada com belíssimas fotos, registra o preço pago: há imperfeição na curvatura do Palácio da Música, perceptível ao olhar mais apurado (clique aqui para ler). Quem desce a escadaria do Monumento aos Direitos Humanos tem que ficar atento para a diferença na altura dos degraus. Outra questão fundamental a ser esclarecida é se houve algum problema estrutural a motivar a redução no número de volumes do acervo previsto da biblioteca, de 300 mil exemplares em 2003 para 100 mil na inauguração, já que a área do prédio não foi diminuída.

Goiás e DF juntos

Coincidentemente, vive-se a mesma situação com outro projeto de Niemeyer - a Biblioteca Nacional de Brasília. Seu custo foi de R$ 42 milhões e ela permanece fechada, com o privilégio de ter sido inaugurada duas vezes: por Joaquim Roriz, em 31 de março de 2006 e por sua sucessora, Maria de Lourdes Abadia, em 15 de dezembro do mesmo ano, conforme matéria do mês passado, da Folha de São Paulo (leia aqui).

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