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20 outubro, 2007

Efeito Google - A Cultura em Goiás, dez anos atrás

Com o anúncio, pela Agepel, de mais uma edição da Temporada Nacional de Teatro de Porangatu, estive procurando no Google informações sobre o ator Stephan Nercessian. Dos subterrâneos da grande rede, emergiu um texto interessantíssimo, escrito em 1998 por um então estudante de jornalismo da UFG.

Quase dez anos, as questões colocadas no artigo ainda estão por resolver: o patrocínio à cultura, o jornalismo cultural, a formação de público, a relação com as celebridades(e os Bitkids, nem lembrava mais , o que foi feito deles?).

O artigo consta da edição nº 4, de março de 1998, do Jornal Integração ,
que aparentemente existiu entre 1997 e 2000, até o número 20 ( clique aqui para acessar as edições on line). Entre os colaboradores, nomes que hoje militam com destaque no jornalismo local, como Eduardo Horácio, Giordano Maçaranduba e Pablo Kossa.

Esse é um caso típico do chamado "Google effect", em que informações aparentemente perdidas são recuperadas pelo motor de busca. Caso prefira ler o texto no site original, clique sobre o título.


Todos os goianos vão para o céu

Jardel Sebba Filho

No final de Setembro do ano passado, o presidente Fernando Henrique, lobo mau do neo-liberalismo, assinou uma Medida Provisória que ampliava a atuação da Lei Rouanet, de 1991, que trazia incentivo fiscal a quem investisse em projetos cinematográficos. Com a MP, o governo beneficiava outras cinco áreas: teatro, música erudita e instrumental, literatura, exposições de artes plásticas e acervos de bibliotecas e museus. A lei permite que o empresário que investir nessas áreas desconte integralmente o investimento, desde que este não ultrapasse 5% do total a ser cobrado pelo Imposto de Renda.

Ainda da série antes-tarde-do-que-nunca, devo explicar que o empresário é aquele que busca o lucro nas suas atividades. Não chorem, crianças! Esse é o capitalismo, selvagem, bobo, chato e feio. O mesmo capitalismo da malvada Coca-Cola, aquela coisa química, onipresente e sem conteúdo, que nossa colega Ana Lúcia Carvalho não gosta. Esse é o mundo cruel em que vivemos, e talvez a culpa seja da Coca-Cola.

Considerando, então, esse panorama, soa ridícula a reação do meio artístico goiano, publicada em "O Popular" de 09/11/97, de que os empresários do estado não percebem a importância do patrocínio à cultura. Ninguém joga para perder, e a classe empresarial goiana não vai investir num meio onde não existe público, que não dá retorno. A falta de público interessado em arte e cultura é, este sim, o centro da discussão.

Alguns vão contestar esse dado, mas contra fatos, graças a Deus, não há argumentos. Menos de duzentas pessoas foram assistir "Como Nascem os Anjos", longa-metragem carioca símbolo da retomada do cinema brasileiro e patrocinado pela prefeitura daquela cidade. Uma semana depois, alguns milhares de jovens se aglomeravam num show do Kid Abelha. Podia se andar pelado pelos corredores da Bienal do Livro que ninguém iria notar, mas a Pecuária de inverno foi um sucesso. Mas não existe ignorância e sub-produtos culturais em todas as partes do país? Sim, existe, só que numa cidade de 6 milhões de habitantes, como o Rio de Janeiro, há público para tudo, enquanto em outra de 1 milhão, como Goiânia, não.

Mas a culpa é só do público, que não demontra interesse pela cultura? Certamente não. Os veículos de comunicação de massa do estado contribuem para essa aculturação geral em muito. O praticamente único jornal impresso do estado de Goiás publica que Louis Malle está atualmente dirigindo documentários nos EUA, quando o cineasta francês morreu em 95. Esse mesmo jornal publica em quase metade da primeira página, de seu segundo caderno, matéria sobre os filmes da Mostra de Cinema do Fórum sobre Cultura que seriam exibidos sábado e domingo, quando essa mesma mostra havia encerrado as exibições na terça-feira, por problemas técnicos. Esse jornalismo mal informado é causa e conseqüência de um público culturalmente desinteressado. Os profissionais da informação não se preocupam em pesquisá-la corretamente porque não há público interessado, e o público se desinteressa por não haver uma informação mais elaborada. Enquanto isso a tirânica Coca-Cola continua vendendo horrores...

Outro vício da informação que limita a busca cultural em Goiás é o complexo de inferioridade do qual sofre a imprensa local. E esse é outro aspecto que, ao mesmo tempo, reflete e estimula um sentimento que está no cerne da própria sociedade goiana. Quaisquer coisas que façam a Cláudia Liz, o Orlando Morais, o Stephan Nercessian, o presidente do Banco de Boston ou o global Wolf Maia são mais importantes que outras e seus nomes vem precedidos da origem de cada um, que é a mesma. Belchior ganha página inteira só porque passou por Goiânia. Akdum vira banda importantíssima pelo mesmo motivo. A companhia Quasar de dança só se respalda quando são listados os prêmios ganhos em outras partes do Brasil e do mundo. Os Bitkids tocaram no programa da Xuxa, e foram ao Jô (onde, aliás, aproveitaram para dizer que nem todos os discos dos Beatles haviam chegado em Goiânia, o que é uma completa estupidez). Não importa o que é medíocre e o que não é, é nosso, temos que celebrar. E vamos continuar majoritariamente medíocres.

Ainda dentro dos veículos de imprensa, outro vício é o vínculo estabelecido entre cultura e alta sociedade. Passa-se uma imagem de cultura como a produção dos ricos e famosos. Qualquer um (e não são muitos) que já tenha ouvido falar nos beatniks, na arte pop, no pós-punk, ou na Novelle Vague sabe que essa relação é, na maioria das vezes, inversamente proporcional. A elitização acaba confundindo cultura com etiqueta. Se fosse assim, Caetano Veloso não seria quem é (e até que seria bom, convenhamos).

Enquanto nossa principal diversão continuar sendo passar nas portas dos bares com o som alto, dando cavalos de pau, vestindo botas e fivelas e atendendo celulares em público, não vai haver empresário que invista em cultura. Temos que estimular para que esta dê retorno a quem investe, quando não precisaremos nem cobrar que o investimento será, tenho certeza, automático. O Carlton Dance e o Free Jazz, que não passam por aqui, são provas disso. Mas enquanto estimularmos essa inércia cultural, e nós, como futuros profissionais da imprensa, temos grande responsabilidade na continuidade ou não desse processo, não haverá Lei Rouanet que resolva. E a culpa vai continuar sendo da Coca-Cola.

Jardel Sebba Filho é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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