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23 janeiro, 2006

No forno

Peço desculpas pela demora em publicar novos textos. Espero fazê-lo ainda esta semana. Enquanto isso, compartilho com vocês um artigo inteligente e oportuno sobre nossa produção cultural. É de Rogério Borges, repórter de O Popular, onde foi publicado originalmente em 04.05.05.
A literatura e os diletantes

Existe um ditado popular que afirma: “Todo homem precisa ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro”. Esse adágio pode contribuir muito para a perpetuação da espécie e ser um lema para os ecologistas. No campo da literatura, porém, tal frase só atrapalha. Muita gente leva esse conselho a sério e resolve, do nada, da vontade nascida do ócio e da vaidade, escrever um livro.

Rogério Borges

Muitos acreditam que devem começar pela poesia. “Ah, eu tenho muito o que dizer. Vou traduzir meus sentimentos em versos”, pensam. E dá-lhe rimas de amor com flor, de amar com perdoar, de saudade com felicidade. Aqueles versinhos tristes, pobres, indigestos, açucarados. Depois de bancar a edição em gráficas disfarçadas de editoras, o autor resolve promover uma noite de autógrafos para lançar sua grande obra. Chama os amigos de longa data, a panela cujos membros só sabem se elogiar reciprocamente. Pronto. Temos um escritor de expressão, injustiçado pela mídia, que teima em priorizar a cobertura de lançamentos de autores mais famosos. Pelo menos é isso o que eles pensam.

O mesmo se repete com o autor de contos, que acredita que tal gênero narrativo se faz apenas com uma historiazinha engraçadinha, com algumas expressõezinhas regionalistas e tudo está resolvido. E também com o romance. “Meu livro tem viés histórico, fiz uma grande pesquisa sobre as nossas raízes para fazer esse trabalho.”

Todas essas situações se repetem com uma freqüência acima da que gostaríamos. E isso ocorre porque muita gente acredita que literatura não é coisa séria e sim um campo vasto e infinito para diletantes de todos os matizes. O médico que escreve bem artigos científicos acha que já é um escritor. O engenheiro que ocupa cargos de chefia em uma empresa se acha bom o bastante para entrar no campo literário, assim, sem mais nem menos. A dondoca, o jornalista medíocre, o professor rebuscado e enfadonho, a decoradora de ambientes, o advogado falastrão. Todo mundo se considera talhado para o ofício de escrever. Ledo engano.

Os palestrantes que participaram da 1ª Bienal do Livro de Goiás, encerrada no último domingo, corroboraram a tese que estou defendendo neste texto. Mesmo aqueles que disseram usar a intuição para escrever, como Lygia Fagundes Teles e Lygia Bojunga, fizeram questão de deixar claro que a utilizam com método. O romancista Antônio Torres disse em entrevista que sempre busca a palavra certa. Affonso Romano de Sant’Anna reafirmou a importância do estudo na construção poética. Milton Hatoum revelou que escreve e reescreve seus livros várias vezes até chegar ao ponto de maturação que ele acha ideal para publicação.

Os exemplos dos grandes mestres nos mostram claramente que fazer literatura não é algo tão simples como muitos pensam ser. Goethe demorou uma vida para escrever Fausto. Graciliano Ramos sempre rasgava o que produzia por achar que não era bom o suficiente, só vindo a publicar seu primeiro livro após os 40 anos. Guimarães Rosa e Pedro Nava andaram pelo interior mineiro catando experiências para seus livros. O poeta Mário Faustino era um verdadeiro artesão das palavras e a erudição de Rubem Fonseca em relação à literatura transparece em suas obras. Henry James, em seus notórios prefácios, ensinava que o tema inicial da narrativa era muito importante, mas que ele exigia uma lapidação paciente para se tornar, de fato, uma obra literária.

Em Goiás há diletantes escrevendo, como os há em qualquer parte do País, do mundo. O grande ensaísta Antonio Candido, dentro de sua concepção de formação literária, até defende a literatura menor como um elemento necessário para a criação de um ambiente que favoreça o aparecimento de grandes talentos. Esses diletantes vão continuar produzindo seus volumes pouco significativos, que logo cairão no esquecimento.

Não quero aqui barrar a produção desses candidatos a escritor de verdade. Todos devem desfrutar da liberdade de expressão. O que eu realmente gostaria é que a Bienal, com todos os ensinamentos que trouxe ao público, fosse bem aproveitada por quem está neste campo. Gostaria que o evento servisse para que a arte da literatura fosse levada um pouco mais a sério, praticada com mais cuidado, com mais critério, com menos pressa, com mais autocrítica. Ela merece essa consideração.

Rogério Borges é repórter do Magazine

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