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08 outubro, 2006

Seis meses depois, o fim do anonimato

O Popular de hoje traz, no caderno Magazine, entrevista com Paulo Mendes da Rocha, a propósito da realização do Congresso Brasileiro de Arquitetura, que acontece esta semana em Goiânia.

É a primeira vez que a imprensa goiana menciona o prêmio Pritzker, concedido a Mendes da Rocha no começo do ano, considerado a maior honraria da arquitetura mundial. À época, o assunto passou em branco, a despeito de algumas de suas obras mais importantes estarem em Goiânia. Escrevi a respeito, em 17 de abril, nota intitulada Ilustre anônimo.

Pouco antes havia sido inaugurado o Centro Cultural Oscar Niemeyer, onde acontecerá a abertura do congresso, com uma overdose midiática. Os dois arquitetos são os únicos brasileiros agraciados com esse prêmio.

Com essa entrevista, o Popular, que fez um caderno especial sobre o Estádio Serra Dourada sem citar uma única vez o autor do projeto, se redime com Mendes da Rocha. Num trecho imperdível da entrevista, o repórter Rogério Borges o questionou sobre a descaracterização de suas obras em Goiânia:
O senhor já viu essas suas obras [Estádio Serra Dourada, Jóquei Clube e Estação Rodoviária] hoje , aqui em Goiânia?
Ah, não quero ver. É como criança, você dá um brinquedo, o primeiro ela quebra, o segundo, ela compreende.


Como o senhor encara a descaracterização de suas obras?

Você pode dizer o que quiser até certo ponto. Eu tenho a impressão de que, quanto mais elas ficam visivelmente prejudicadas, rejeitadas, mais fazem ver que a essência do seu desenho queria dizer justamente aquilo que nós queríamos dizer. As coisas não podem ser assim.


E por que ocorre esse desrespeito pela criação do outro?

Antes de mais nada, o que você vê nesses casos é que a população é alienada em relação aos seus benefícios, seus direitos. Ninguém protesta. Um empresário isolado pode ter cupidez, desejo de multiplicar por cem o investimento, seu lucro, mas a população que desfruta daquilo podia se mostrar e dizer “pelo amor de Deus, isso não”. Então, você vê que o povo de fato não comparece na formação da estrutura política do desenvolvimento. Esse é um mal.
Assinante, leia a entrevista completa em O Popular.
A professora Christine Mahler, da Faculdade de Artes Visuais, da UFG, estudou em sua dissertação de mestrado - Aspectos da Modernidade na Cidade de Goiânia (1950 - 1960) - o Jóquéi Clube e o Estádio Serra Dourada, sob a perspectiva do patrimônio cultural.
Segundo o resumo do trabalho, " a situação atual de descaracterizações e grandes impactos sofridos revelam o desconhecimento por parte dos gestores locais acerca dos valores que se encontram contidos na obra edificada. Os resultados analisados demonstram a necessidade de uma educação patrimonial para proteger e evitar que tais situações mascarem ou destruam a História e a Memória de uma cidade. "
Quando escrevi minha nota, tentei entrevistar a professora, sem sucesso. Como registro, transcrevo as perguntas que lhe faria :
1) Como se deu a aproximação de Paulo Mendes da Rocha com a cidade?

2) Em sua dissertação, a senhora estuda duas obras dele na cidade, o Jóquei Clube e o Estádio Serra Dourada. Qual a importância delas nos conjuntos da criação de Paulo Mendes da Rocha, da arquitetura brasileira e de Goiânia?

3) Qual o estado dessas obras em termos de descaracterização e impactos sofridos, e qual a sua causa?

4) O caderno especial de O Popular em celebração aos 30 anos do Estádio Serra Dourada, publicado no ano passado, sequer mencionou o autor do projeto e seu valor arquitetônico. Há outras obras importantes existentes na cidade sem a devida valorização ou que estejam sofrendo ou possam vir a sofrer descaracterização?


5) Que propostas a senhora teria para se conseguir uma mudança de atitude e a reversão dessa situação?

7) Sendo os únicos brasileiros ganhadores do prêmio Pritzker, como a senhora situaria as obras de Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer?

6) Qual sua avaliação do Centro Cultural Oscar Niemeyer?

7) Como a senhora avalia a arquitetura praticada em Goiânia atualmente?

Mendes da Rocha fará a conferência final do congresso, no sábado, às 18:30, no Centro de Convenções.

17 abril, 2006

Ilustre anônimo


Nas edições de ontem, tanto a Folha de São Paulo quanto o Estadão deram destaque à premiação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha com o Pritzker de 2006 (considerado o Nobel da área), trazendo reportagens especiais e entrevistas. Do Brasil, só Oscar Niemeyer já tinha recebido a láurea (em 1988).

Na Folha, uma das fotos que ilustram a matéria, no Mais!, é do Serra Dourada, que consta da cronologia das obras mais importantes de Mendes da Rocha. O livro da Cosac & Naify sobre sua obra também traz o projeto do estádio.

Passada apenas uma quinzena da inauguração do Centro Cultural Oscar Niemeyer, com toda a mídia que envolveu, não poderia haver coincidência mais feliz para destacar a necessidade de valorização do patrimônio artístico que é o estádio, mesmo que seja porque seu criador virou celebridade, fazendo parte do jet set da arquitetura (conforme o Estadão).

Espera-se agora um maior respeito por suas obras na cidade. O Popular já trouxe, à época da construção do Goiânia Arena, artigos assinados por arquitetos condenando as interferências feitas no estádio ao longo dos anos, que culminaram com o atentado estético que é aquele Hulk.

Fica mais difícil também, repetir-se a proeza do caderno especial Serra Dourada, publicado pelo mesmo jornal, há um ano (27 de março de 2005), a propósito da reabertura do estádio, na comemoração dos seus 30 anos, após reforma que consumira oito milhões de reais. Mendes da Rocha sequer foi mencionado, enquanto o engenheiro responsável pela condução da obra teve até a família retratada. O caderno especial está disponível para assinantes em http://www2.opopular.com.br/serradourada/default.htm .